26/08/2009:  
Para especialista, etanol brasileiro poderá substituir de 5 a 10% da gasolina usada no mundo
 

“Brasil é o país com maior potencial para suprir a demanda por bioenergéticos, por deter tecnologias de produção e uso, além de áreas para plantio“.

O Eng Carlos Freitas, PhD, coordenador do Projeto Biocombustiveis da CONATUS BIOENERGIA:

Álcool solução energética para o Mundo, durante a reunião do Conselho Superior do DEAGRO.

Os dados apresentados pelo pesquisador são uma resposta afirmativa à pergunta que serviu de título à palestra. "O álcool de cana é o biocombustível de maior produtividade no mundo e de melhor balanço energético, e a incorporação de tecnologias diversas já desenvolvidas ou em vias de implementação deverão dobrar ou mesmo triplicar a atual produtividade por hectare", afirmou.

Iniciado em 2005 pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp, o Projeto Etanol tem como objetivo avaliar as conseqüências sociais, econômicas e ambientais da produção de etanol em larga escala, bem como a capacidade de expansão do setor sucroalcooleiro suprir, num prazo de 20 anos, o equivalente a 5 a 10% da demanda mundial de gasolina.

O projeto reúne cerca de 20 pesquisadores, com oito responsáveis pelas seguintes equipes setoriais:

1 - levantamento do estágio atual de tecnologia em uso e possíveis melhoriais;

2 - avaliação de novas tecnologias;

3 - levantamento de áreas com potencial para produção de cana-de-açúcar;

4 - levantamento da infra-estrutura existente e necessidade de melhorias e ampliações;

5 - avaliação dos impactos socioeconômicos;

6 - construção de cenários de produção de etanol e impactos socioeconômicos;

7 - avaliação dos impactos ambientais;

8 - legislações e políticas em países potenciais compradores.

De acordo com Dr. Carlos Freitas, inúmeros fatores convergem favoravelmente para a expansão do mercado mundial de etanol. "O pico de produção mundial de petróleo ocorrerá dentro de 5 a 10 anos, e a expectativa é que o preço do petróleo e do gás natural se eleve a US$ 200, por barril, disse o especialista. "Também a questão do aquecimento global, que tem relação direta com a alta emissão de gases do efeito estufa devido à queima de combustíveis fósseis, estimula a busca de opções em biocombustíveis".

O pesquisador mostrou a evolução do desenvolvimento das tecnologias em produção e uso de etanol desde antes de 1985 até o estágio atual. Ele ainda falou da disponibilidade de áreas para expansão do plantio de cana (de antemão, o estudo já exclui as áreas ocupadas pela agricultura, as florestas e as regiões que não oferecem solo e/ou clima adequado a essa cultura), além dos investimentos necessários em logística e no estabelecimento de novas usinas. "Para viabilizar a substituição de 10% da gasolina usada no mundo por etanol brasileiro, seria necessário ocupar menos de 10% da área agricultável do Brasil com cana-de-açúcar", ressaltou Carlos Freitas.

Investimentos com retorno garantido"Para atingirmos uma produção de 100 bilhões de litros de etanol/ano em 2025, será necessário um investimento de R$ 10 bilhões/ano, nos primeiros quatro ou cinco anos de implementação do projeto".

De acordo com ele, esses investimentos se tornariam gradativamente menores na medida em que os bons resultados comerciais começassem a aparecer. "É viável atingir, em 2025, a marca dos US$ 31 bilhões em exportações. Isso sem falar na geração de 5,3 milhões de empregos e um aumento do PIB em R$ 153 bilhões, incluindo rendas diretas e indiretas", explicou.

As excelentes perspectivas apontadas pelo Projeto Etanol não significam, porém, que o mundo estará de portas abertas para o etanol brasileiro. Como ponderou o conselheiro Pierangelo Rossetti, "a Europa e os Estados Unidos têm hoje uma preocupação estratégica em alcançar a auto-suficiência energética. E, certamente, vão preferir investir em suas tecnologias próprias de desenvolvimento de etanol, sobretudo à base de milho e beterraba, do que em criar uma dependência em relação ao biocombustívelbrasileiro".

Carlos Freitas concordou com a observação, mas salientou que o problema poderia ser contornado na medida em que o Brasil se posicionasse como um fornecedor estável e garantido. E concluiu: "É fundamental que o Inmetro se envolva com a questão do etanol, oferecendo garantia de qualidade".

Etanol de palha e bagaçoAtualmente, as usinas procedem à queima do bagaço e da palha da cana para alimentar as caldeiras. Além de ser criticado por razões ambientais (na queima, são liberados gases de efeito estufa), esse método gera o desperdício de um material constituído quase essencialmente de celulose.

Visando otimizar o aproveitamento de toda essa matéria-prima, os cientistas estão investindo no desenvolvimento de tecnologias de hidrólise, que permitam quebrar as moléculas da celulose obtida da palha e do bagaço da cana, produzindo assim o etanol. Este aproveitamento permitiria produzir cerca de 30% a mais de etanol.

Basicamente, estão sendo desenvolvidos dois sistemas de hidrólise: a hidrólise ácida, onde a quebra é obtida por meio da adição de ácido sulfúrico aos resíduos, e a hidrólise enzimática. Esta última, como o nome indica, baseia-se na adição de uma enzima apropriada, obtida a partir de culturas de bactérias geneticamente modificadas. Segundo o pesquisador Carlos Freitas, esses processos – hoje de custo bastante elevado – tendem a se tornar comercialmente viáveis num prazo de 15 anos.

Eng Carlos H. Freitas
traceagro@ig.com.br